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Quando a sanfona silencia, a memória resiste: o forró pé de serra em Estância pede futuro


Em Estância, onde o São João se ergue como um dos mais emblemáticos do Brasil, o som da sanfona sempre foi mais que música: foi identidade em estado bruto. Durante muitas décadas de festejos ininterruptos, o fole ditou o ritmo da memória coletiva. Hoje, porém, o que se ouve, por entre bandeirolas e fogueiras, é uma auasência que inquieta.

A partida de mestres como Zé Taquary, Badinho, Tota Machado, Zé Rodrigues, Raimundo de Jacó, Zedinato Cebinho e Patelô não representa apenas perdas individuais — é como se cada ausência arrancasse uma nota da partitura cultural da cidade. Restam poucos guardiões, como Neno, Zé Carlos e Gonçalo, sustentando, quase solitários, a respiração do forró tradicional.

Há, nesse cenário, uma ironia silenciosa: celebra-se com grandiosidade o São João, enquanto se enfraquece, pouco a pouco, o alicerce que o sustenta. A festa permanece, mas sua essência corre o risco de se diluir.

Nascido no Nordeste — entre Pernambuco, Paraíba e Ceará — o forró é fruto da mistura entre vivência e resistência. Consolidado nacionalmente a partir dos anos 1940, encontrou em Asa Branca, de Luiz Gonzaga, sua expressão mais emblemática: um canto que traduz seca, saudade e esperança.

Seus ritmos — o baião pulsante, o xote cadenciado, o xaxado arrastado, o arrasta-pé vibrante — narram a história de um povo que transforma adversidade em celebração. Mestres como Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Marinês, Genival Lacerda e o Trio Nordestino moldaram essa tradição que, por décadas, foi aprendida “de ouvido”, como quem aprende a viver.

Em Estância, o Trio Sertanejo — com Pedro Sertanejo, Ezequias e Tonho Maroto — ecoava essa herança nas manhãs de domingo da Rádio Esperança. No programa “Meia Hora no Sertão”, o tempo parecia suspenso: meia hora bastava para lembrar quem se era.

Hoje, o desafio não é apenas recordar, mas reinventar a continuidade. Sem políticas públicas consistentes — como formação de novos sanfoneiros e incentivo à cultura de base — o risco é que o som da sanfona permaneça apenas como lembrança.

Porque, quando a sanfona se cala, não é só a música que se perde — é a própria voz de um povo que começa a se apagar.

 


Por: Genílson Máximo