Na década de oitenta, em Estância, as margens da BR-101 pareciam possuir vida própria quando a noite caía. Caminhões rasgavam a estrada feito trovões metálicos, enquanto luzes coloridas piscavam nos famosos bordéis de Tomatinho, Cícero, Gildo, Ninha Ninete, Raimundo de Jacó e no célebre Bambu. O povo mais puritano chamava aqueles lugares de “casas obscenas”. Mas quem conhecia os atalhos da vida sabia: ali muita gente ia não apenas atrás de prazer, mas também de esquecimento, consolo e fuga. O cabaré era democrático. Misturava rico, liso, remediado, empresário, picareta, biriteiro, caminhoneiro, valentão, homem de família e sujeito perdido de si mesmo. Tinha de tudo. Era um retrato torto da própria sociedade. E naquele universo de fumaça, música alta, perfume barato e tristeza escondida atrás de gargalhadas, destacava-se Dona Ninete. Era impossível sua presença passar despercebida. Alta, elegante, sempre vestida em cores vibrantes, joias reluzindo nos braços e um perfume que anunciava s...
Num desses dias em que a inspiração nos dá um sacolejo tão forte no juízo que chega a deslocar o bom senso, resolvi sacudir as lembranças, espanar o pó do tempo e colocar no papel um episódio que, ao meu ver, pertence à mais pura essência da comédia pastelão da vida real. Era tarde de um domingo, 23 de maio de 2010. A nossa querida Estância, terra de Gumercindo Bessa, parecia um formigueiro que tinha levado uma topada. Pelos quatro cantos, o fuxico da campanha eleitoral corria mais rápido que rastro de pólvora. Para completar o caldeirão, os festejos juninos já batiam à porta, e em cada beco, rua e esquina, respirava-se uma mistura de promessa política com aquele gostinho de "Salva Junina" — tradição das boas que fecha maio com chave de ouro e fumaça no zóio. Neste cenário de pura ebulição, o telefone tocou. Do outro lado, a voz veloz e inconfundível do meu amigo — o sempre atencioso médico e forrozeiro de carteirinha, passaporte e bota de couro — doutor Gilson Andrade. Ele m...