Num desses dias em que a inspiração nos dá um sacolejo tão forte no juízo que chega a deslocar o bom senso, resolvi sacudir as lembranças, espanar o pó do tempo e colocar no papel um episódio que, ao meu ver, pertence à mais pura essência da comédia pastelão da vida real. Era tarde de um domingo, 23 de maio de 2010. A nossa querida Estância, terra de Gumercindo Bessa, parecia um formigueiro que tinha levado uma topada. Pelos quatro cantos, o fuxico da campanha eleitoral corria mais rápido que rastro de pólvora. Para completar o caldeirão, os festejos juninos já batiam à porta, e em cada beco, rua e esquina, respirava-se uma mistura de promessa política com aquele gostinho de "Salva Junina" — tradição das boas que fecha maio com chave de ouro e fumaça no zóio. Neste cenário de pura ebulição, o telefone tocou. Do outro lado, a voz veloz e inconfundível do meu amigo — o sempre atencioso médico e forrozeiro de carteirinha, passaporte e bota de couro — doutor Gilson Andrade. Ele m...
João Esídio dos Santos, eternizado pelo apelido de João Barriga , foi um desses personagens que dão alma às cidades do interior. Homem simples e de mil ofícios, fez da Rua de São Cristóvão, no bairro Santa Cruz, em Estância, o seu porto seguro, onde fincou raízes e criou sua numerosa prole. Nos seus primeiros tempos, era figura cativa no cotidiano da cidade como aguadeiro, vendendo o precioso líquido transportado no lombo de burros. Com o suor do trabalho, conseguiu evoluir: adquiriu uma possante junta de bois e uma carroça, com a qual vencia as ladeiras transportando pedras e materiais de construção. Mais tarde, o destino o forçou a retroceder para um veículo menor, puxado por um só burro, até que as intempéries da vida o fizeram perder seus bens. João era casado com a senhora Sofia Ferreira dos Santos, com quem dividiu a jornada de criar nove filhos. Durante minha adolescência, conheci dois deles — Caquinho e Nenê —, que hoje, como o pai, já habitam a memória. Figura onipresente no b...