O palhaço ladrão de mulher
Lá pelos idos das décadas de 70 e 80, o Brasil
vivia sob a sombra pesada da Ditadura Militar. Havia censura, medo, vigilância
e um silêncio forçado que tentava enquadrar até o riso. No interior, porém,
onde a repressão chegava mais como eco do que como sirene, o povo encontrava
brechas. Pequenas, improvisadas, mas eficazes. E uma dessas brechas vinha sobre
rodas, levantando poeira, boato e expectativa: o circo itinerante.
Quando a lona começava a ser armada, a cidade
mudava de humor. As rádios AM tocavam Waldik Soriano cantando que não era
cachorro, Odair José mandava parar de tomar a pílula, e aquilo, por si só, já
era quase um ato revolucionário. Enquanto a MPB “intelectualizada” discutia o
país nos salões, o povo digeria o mundo no picadeiro, entre gargalhadas,
suspiros e desejos mal disfarçados.
Aqui em Estância, os circos chegaram como chegam
as histórias que ninguém esquece. Circo Garcia, Circo de Tourada, Circo Vostak,
Circo Fumachú. Cada um armando sua lona nos fundos do colégio das irmãs, no
terreno próximo à caixa d’água do SAAE — onde depois viria o ginásio do JNF —
ou no campo do Cruzeiro. Era sempre o mesmo ritual: caminhões, estacas, cabos
de aço, cheiro de serragem e o anúncio berrado pelo carro de som.
Ao contrário do que muita gente gosta de fingir, o palhaço do circo mambembe não era apenas o bobo da corte. Ele era galã, era perigo, era promessa. Depois do trapezista, do globo da morte e dos números de risco, era ele quem arrancava os suspiros mais profundos. Tinha o riso fácil, o olhar atrevido e, sobretudo, carregava consigo aquilo que faltava às mulheres da cidade: estrada.
Criou-se,
então, o estigma. O palhaço ladrão de mulher.
Dizia-se isso em tom de piada, mas com o coração
apertado. “Cuidado que o circo chegou e o palhaço está de olho.” A frase
circulava nas calçadas, nas mesas de bar, nas cozinhas. Servia de brincadeira e
de aviso. Porque o que parecia lenda era rotina.
Há relatos — e alguns ainda cochichados — sobre
um circo que passou por Estância em que o Palhaço Chevrolet, famoso pelo carro
de propaganda, precisou esconder uma moça dentro de um baú de figurinos. O pai
da jovem, homem influente, cercou o circo com a polícia. A moça só saiu do baú
quando a lona já balançava em território baiano. O circo partiu às pressas,
como tantas outras vezes.
O palhaço Meloso, sergipano, contava em
entrevistas que o assédio era constante. As moças ficavam rondando a
casa-carro, o trailer, esperando o fim do espetáculo. Para evitar tragédia
maior — linchamento, faca, cadeia — muitos donos de circo proibiam envolvimento
com mulheres locais. Proibição inútil. Quando uma mulher fugia, o circo não
desmontava: desaparecia.
Nos arquivos das delegacias do interior, décadas
de 70 e 80, ainda repousam boletins de ocorrência curiosos. “Rapto de
vulnerável”. “Abandono de lar”. Maridos registravam queixa não porque tinham
sido abandonados, mas para salvar a própria reputação. Era mais fácil dizer que
foi roubado do que admitir que foi deixado.
E elas iam
Iam deixando filhos dormindo, marido roncando,
família rezando. Iam porque o circo oferecia mais do que amor: oferecia
movimento. O palhaço não roubava mulheres; roubava destinos já cansados de
serem os mesmos.
Os mata-cachorros — trabalhadores braçais
contratados para bater estaca, cavar buraco, prender cabo e vigiar entrada —
muitas vezes facilitavam a passagem. Mulher entrava de surdina, por debaixo da
lona, escapando não só do marido, mas de uma vida inteira previamente escrita.
Quitéria de Zé Pequeno foi levada.
Chica do Pão Doce foi levada.
Pé de Ganso perdeu a filha.
Zé Burel perdeu a esposa.
João Três Pernas também.
Quando a lona subia, subia junto a contabilidade
da ausência. Pais reclamavam filhas adultas ou adolescentes. Maridos contavam
cadeiras vazias à mesa. O circo não trazia apenas entretenimento: trazia perigo
moral, medo e fascínio. Um espelho cruel daquilo que a cidade fingia não
existir.
Esse fenômeno foi tão recorrente que virou tema
de músicas, versos de cordel, histórias de feira. O palhaço virou personagem
maldito e desejado. Ladrão de mulher, sim — mas com o consentimento delas.
E houve exceções que bagunçaram ainda mais o
roteiro. Numa dessas temporadas, chegou a Maria Luzia. Mulher trans, atração do
circo, conhecida como a Rumbeira. Um espetáculo à parte. O circo foi embora.
Desta vez, foi o contrário: ela ficou. Conheceu um rapaz, juntou-se, fincou
raiz. Provando que, naquele jogo estranho entre ir e ficar, nem sempre quem
foge é quem parte.
No fim das contas, o palhaço estava mesmo de
olho. Não apenas nas mulheres, mas na cidade inteira. E a cidade, engessada
entre moral e medo, nunca perdoou quem ousou atravessar a lona e escolher o
mundo lá fora.
Por: Genílson Máximo
Em: 19 de janeiro de 2026.
