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Mostrando postagens de 2026

A experiência ignorada: por que a cadeira de presidente da Câmara de Estância foge dos veteranos

  Estância ocupa um papel releva nte no cenário político sergipano. Com forte arrecadação e influência regional, o município exige expertise na condução de seus espaços institucionais — especialmente no Poder Legislativo. A presidência da Câmara Municipal, mais do que uma função administrativa, representa a condução de uma estrutura que movimenta recursos expressivos. O duodécimo mensal é de R$ 1.133.005,35, o que projeta, ao longo de um biênio, um montante de R$ 27.192.108,40 sob gestão da Mesa Diretora. Trata-se, portanto, de uma função que exige preparo, planejamento e visão administrativa. A Câmara de Estância reúne vereadores com trajetórias distintas. Entre eles, nomes com longa experiência legislativa seguem como referências dentro da Casa. É o caso de Artur Oliveira, com seis mandatos; Sandro de Bibi e Zé da Paz, ambos com cinco mandatos. São parlamentares que acumulam décadas de vivência no Legislativo municipal, com conhecimento consolidado sobre o funcionamento ins...

Comício, dentadura e um discurso que não fechava

Crônica Na década de 80, em plena efervescência de uma campanha eleitoral — daquelas em que promessa corria mais solta que boato de feira — fui convidado a participar do comício de um político local bastante conhecido. O evento aconteceu em frente ao Hotel Dom Bosco, num palco improvisado sobre a carroceria de um caminhão, virado para a Praça do Amparo como quem desafia o equilíbrio e a lógica. Era uma quarta-feira à noite, e a rua fervilhava. Gente por todo lado, espremida, animada, curiosa — alguns pelo candidato, muitos mais pelo espetáculo. Porque, naquele tempo, comício não era só discurso: era quase uma quermesse política. Distribuíam-se brindes, camisetas, bonés, promessas e, em alguns casos, até esperança — essa, sempre em estoque duvidoso. A decoração ajudava no clima: cartazes colados nas paredes, rostos sorridentes nos postes, bandeirinhas atravessando a rua como se fosse festa junina fora de época. A iluminação, meio improvisada, dava ao cenário um ar entre o solene e o c...

O Circo, o Jogo e a Urna: Estância não pode ser figurante no espetáculo de 2026

  O ano de 2026 desenha-se como a “tempestade perfeita” para o entorpecimento da consciência política. Em um calendário em que a Copa do Mundo divide espaço com o brilho das fogueiras do São João, o eleitor corre o risco de ser reduzido a um mero espectador — e pior: o único a pagar o ingresso de um espetáculo no qual deveria ser o protagonista. Enquanto o Brasil vibra com o apito inicial em 11 de junho, nos bastidores, a engrenagem dos “mercadores de votos” já opera em rotação máxima, lubrificada por interesses que nada têm a ver com o bem comum. A patologia dos “candidatos copa do mundo” Eles surgem do nada, como se despertassem de uma hibernação estratégica que dura exatamente quatro anos. Não constroem, não participam, não pertencem — apenas aparecem. Cruzam Sergipe com o oportunismo de quem conhece os atalhos para o bolso e a esperança do povo, mas desconhece — ou despreza — a realidade das ruas de Estância. São os Candidatos Copa do Mundo: figuras que ignoram a cidade durante...

Estância: onde até o nome já chega bonito

Estância. Só de falar, já escorre uma sonoridade elegante, dessas que não tropeçam na língua nem causam vergonha alheia fonética. Um nome que se impõe com suavidade — coisa rara. Dizem que veio de um mexicano, Pedro Homem da Costa, sujeito que passou por essas bandas quando Estância ainda era uma extensão de Santa Luzia. Pode ter sido batizada assim por ser ponto de parada, respiro no meio das longas e cansativas rotas comerciais de antigamente. Um lugar onde o corpo descansava e, sem querer, a história começava a se instalar. Dom Pedro II não economizou nos elogios: chamou a cidade de “Jardim de Sergipe” . E não foi por gentileza imperial. Estância carrega nas suas entranhas um patrimônio arquitetônico de fazer qualquer cidade grande corar de inveja — sobrados azulejados, becos que parecem sussurrar segredos e ruas que já viram mais história do que muito livro por aí. Sim, muita coisa se perdeu. Demoliram, mutilaram, apagaram pedaços importantes. Mas Estância tem uma teimosia bonita: ...

O gol de placa de Dr. Jorge Leite: entre Dalva, Herivelton e a Rádio Esperança

    Há crônicas que nascem do saudosismo, mas esta nasce, sobretudo, da admiração. Ela entrelaça dois tempos: o turbulento romance de Dalva de Oliveira e Herivelton Martins nos anos 50 e a lembrança vívida do meu mestre e amigo, Dr. Jorge Leite . Engenheiro elétrico por formação, mas jornalista e radialista por vocação, o proprietário da Rádio Esperança era um homem cujo faro para a comunicação sempre o colocava à frente do seu tempo. Em meados de 2009, o telefone do estúdio tocou. Do outro lado da linha, direto de São Paulo, a voz inconfundível do Dr. Jorge: — "Estou em uma loja de LPs e acabo de garimpar Dalva de Oliveira e Herivelton Martins. Você já ouviu falar deles? Prepare a produção para o meu programa, 'A Esperança Conversa com Você'. Vou contar essa história. Foi um furacão na época!" Dr. Jorge não buscava apenas discos; ele resgatava a memória afetiva do Brasil. Na semana seguinte, ele cruzou o estúdio com os vinis debaixo do braço. Combinamos a grava...

Estância intensifica obras estruturantes e autoriza implantação do Centro da Criança e do Adolescente

  Gestão municipal amplia investimentos em mobilidade, educação, esporte e saneamento, com foco na inclusão social Como parte do planejamento de novos investimentos, será assinada, nesta terça-feira (24), a ordem de serviço para a construção do Centro da Criança e do Adolescente, em Estância. A obra terá investimento de cerca de R$ 2 milhões, com recursos do Fundo da Criança e do Adolescente, e será instalada ao lado do ginásio da Escola Municipal João Nascimento Filho. O espaço, hoje ocioso, será requalificado para ações de proteção e desenvolvimento de crianças e adolescentes. O prefeito André Graça mantém um conjunto de obras voltadas à melhoria da infraestrutura e das condições de vida da população. As intervenções priorizam áreas com carência histórica de serviços públicos. Na mobilidade urbana, seguem os serviços de pavimentação da antiga Rua do Cigano e as obras de drenagem e pavimentação no Conjunto Santo Antônio. As ações buscam melhorar o tráfego e o acesso nessas...

Quando a sanfona silencia, a memória resiste: o forró pé de serra em Estância pede futuro

Em Estância, onde o São João se ergue como um dos mais emblemáticos do Brasil, o som da sanfona sempre foi mais que música: foi identidade em estado bruto. Durante muitas décadas de festejos ininterruptos, o fole ditou o ritmo da memória coletiva. Hoje, porém, o que se ouve, por entre bandeirolas e fogueiras, é uma auasência que inquieta. A partida de mestres como Zé Taquary, Badinho, Tota Machado, Zé Rodrigues, Raimundo de Jacó, Zedinato Cebinho e Patelô não representa apenas perdas individuais — é como se cada ausência arrancasse uma nota da partitura cultural da cidade. Restam poucos guardiões, como Neno, Zé Carlos e Gonçalo, sustentando, quase solitários, a respiração do forró tradicional. Há, nesse cenário, uma ironia silenciosa: celebra-se com grandiosidade o São João, enquanto se enfraquece, pouco a pouco, o alicerce que o sustenta. A festa permanece, mas sua essência corre o risco de se diluir. Nascido no Nordeste — entre Pernambuco, Paraíba e Ceará — o forró é fruto da mistura...

João Barriga: o homem que “ressuscitou” no velório

João Esídio dos Santos, mais conhecido como João Barriga , foi um homem simples e versátil que exerceu diversas profissões ao longo da vida. Morou sempre na Rua de São Cristóvão, no bairro Santa Cruz, em Estância, onde construiu sua história e criou sua família. Nos primeiros tempos, trabalhou como aguadeiro, vendendo água transportada em burros. Depois, conseguiu melhorar um pouco de vida ao adquirir uma carroça puxada por uma junta de bois, com a qual transportava pedras e materiais de construção pela cidade. Mais tarde, substituiu esse veículo por uma carroça menor, puxada por um burro. Com o passar do tempo, porém, acabou perdendo esses bens. João Barriga era casado com a senhora Sofia Ferreira dos Santos, com quem teve nove filhos. Durante a minha adolescência, cheguei a conhecer dois deles — Caquinho e Nenê — ambos já falecidos. Figura bastante conhecida no bairro, João Barriga também tinha fama de ser um grande apreciador de cachaça. Não tinha dificuldades em “meter o pé na jaca...

Prefeito André Graça anuncia nova fase para área do antigo Ceasa

  O prefeito André Graça anunciou que a Prefeitura de Estância dará início, no dia 3 de março, às 11h, a uma nova etapa de ocupação da área do antigo Ceasa. Na data, a gestão municipal assina a ordem de serviço para a construção de um Módulo Esportivo às margens da BR-101, em frente à Maratá. A medida marca a retomada definitiva de um espaço que permaneceu ocioso por cerca de 30 anos. O equipamento será implantado em uma área de 3.119,31 metros quadrados. O investimento soma R$ 1.039.790,66, com recursos oriundos da outorga de água e esgoto do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Estância. A execução caberá à empresa HFontes Engenharia e Construção. O prazo contratual é de dez meses, com entrega prevista para janeiro de 2027. O projeto resulta de parceria entre o Município de Estância e a Secretaria de Estado do Esporte e Lazer de Sergipe. O governo estadual fornecerá os módulos esportivos pré-fabricados. As estruturas incluem campo society, quadra poliesportiva, meia qu...

Os aguadeiros e as antigas fontes de Estância

Imagem do Google: ilustrativa   Durante minha infância e pré-adolescência, testemunhei a presença frequente dos vendedores de água, conhecidos como “aguadeiros”, que transportavam barris de água em burros e jumentos, oferecendo seus serviços de porta em porta e de bairro em bairro. Esses aguadeiros anunciavam: “Olhe a água, freguesa! Água boa, fresquinha, limpinha!”. As pessoas saíam de suas casas com suas vasilhas, eram abastecidas e pagavam pelo serviço. Os aguadeiros desempenharam um papel importante no fornecimento de água potável às famílias, especialmente porque a maioria não tinha água encanada em suas residências. O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) só foi criado em 28 de novembro de 1967, durante o primeiro mandato do prefeito Raymundo Silveira Souza (1967–1970). Esse marco representou o início de uma nova era na vida dos estancianos e gradualmente reduziu a presença dos vendedores ambulantes de água. Mesmo após a criação do SAAE, muitas famílias continuaram c...

Cuidado que o circo chegou e o palhaço está de olho

  O palhaço ladrão de mulher Lá pelos idos das décadas de 70 e 80, o Brasil vivia sob a sombra pesada da Ditadura Militar. Havia censura, medo, vigilância e um silêncio forçado que tentava enquadrar até o riso. No interior, porém, onde a repressão chegava mais como eco do que como sirene, o povo encontrava brechas. Pequenas, improvisadas, mas eficazes. E uma dessas brechas vinha sobre rodas, levantando poeira, boato e expectativa: o circo itinerante. Quando a lona começava a ser armada, a cidade mudava de humor. As rádios AM tocavam Waldik Soriano cantando que não era cachorro, Odair José mandava parar de tomar a pílula, e aquilo, por si só, já era quase um ato revolucionário. Enquanto a MPB “intelectualizada” discutia o país nos salões, o povo digeria o mundo no picadeiro, entre gargalhadas, suspiros e desejos mal disfarçados. Aqui em Estância, os circos chegaram como chegam as histórias que ninguém esquece. Circo Garcia, Circo de Tourada, Circo Vostak, Circo Fumachú. Cada...

Lobisomem que se atreva: no Alto do Cheiro, quem manda é Zé de Antero

O Alto do Cheiro não aparece em mapa grande. É desses lugares que só existem de verdade para quem chega devagar, sentindo a poeira subir mansa, misturada ao cheiro de terra quente e folha amassada. Foi num dezembro de 2008 que cheguei ali, levado pelo convite de Zé de Antero — homem conhecido mais pela boca do que pelos feitos, mas que, no sertão, isso já basta para virar lenda. Antes de subir a ladeira de barro rumo ao povoado, Riachão do Dantas me segurou pelos braços da memória. A igreja de Nossa Senhora do Amparo estava aberta, silenciosa, como se ainda guardasse ecos antigos. Ali, em 1966, um menino chamado Augusto Sérgio caiu da torre enquanto puxava o sino na hora mais solene da missa. O corpo foi levado às pressas para Lagarto; a notícia da morte voltou mais rápido. Desde então, o sino nunca tocou do mesmo jeito. Em cidade pequena, tragédia não passa — se acomoda. Riachão também é a terra do Bode Bito, criatura mais sociável que muito cristão. O bicho acompanhava missas, festas...

O Mistério do lobisomem da Ponte do Bonfim em Estância: um causo de terror e humor

  Final dos anos 1960. Estância, sul de Sergipe. Tempo em que o apito da centenária Fábrica Senhor do Bonfim era mais pontual que relógio suíço e mandava mais do que muito político da época. Bastava o silvo ecoar e pronto: as ruas se enchiam de homens e mulheres de farda azul, caminhando apressados para cumprir turno, trocar serviço ou voltar para casa com o corpo cansado e a alma pedindo um café quente. O bairro Senhor do Bonfim fervilhava em horários certos — três, quatro vezes ao dia — num vaivém quase coreografado, que tinha como passagem obrigatória a pequena ponte de madeira sobre o rio Piauitinga. Entre esses operários, destacavam-se as mulheres: trabalhadeiras, firmes, que encaravam turno da noite sem reclamar. Mas começaram a reclamar — e muito — quando um personagem inesperado resolveu entrar na história: o lobisomem da ponte. Havia também os maridos, homens simples, porém zelosos, que não tinham estudo de sobra, mas tinham relho, cacete e disposição. E, como guardião da ...