Na década de oitenta, em Estância, as margens da
BR-101 pareciam possuir vida própria quando a noite caía. Caminhões rasgavam a
estrada feito trovões metálicos, enquanto luzes coloridas piscavam nos famosos
bordéis de Tomatinho, Cícero, Gildo, Ninha Ninete, Raimundo de Jacó e no célebre
Bambu. O povo mais puritano chamava aqueles lugares de “casas obscenas”. Mas
quem conhecia os atalhos da vida sabia: ali muita gente ia não apenas atrás de
prazer, mas também de esquecimento, consolo e fuga.
O cabaré era democrático. Misturava rico, liso,
remediado, empresário, picareta, biriteiro, caminhoneiro, valentão, homem de
família e sujeito perdido de si mesmo. Tinha de tudo. Era um retrato torto da
própria sociedade.
E naquele universo de fumaça, música alta, perfume
barato e tristeza escondida atrás de gargalhadas, destacava-se Dona Ninete.
Era impossível sua presença passar despercebida.
Alta, elegante, sempre vestida em cores vibrantes,
joias reluzindo nos braços e um perfume que anunciava sua chegada antes mesmo
de ela dobrar a esquina, Ninete carregava uma imponência rara. Os cabelos
cacheados moldavam um rosto firme, de olhar atravessado de mistério. Muito
homem se assanhava tentando cortejá-la, mas ela não dava confiança fácil. Sabia
exatamente o poder que possuía e fazia questão de não se curvar aos desejos
masculinos.
Mas reduzir Dona Ninete à figura de dona de bordel
seria uma injustiça pequena demais para sua grandeza.
Por trás da mulher vaidosa existia uma espécie de
fortaleza humana. Seu estabelecimento virou abrigo para mulheres fugidas de
marido espancador, de pobreza extrema, da humilhação da casa dos bacanas onde
trabalhavam o dia inteiro por quase nada. Muitas chegavam ali carregando filhos
pequenos, olho roxo e alma ferida.
E Ninete acolhia.
Do seu jeito duro, sem discurso bonito, sem
sentimentalismo de novela.
Naquele tempo, quando pouca gente falava em
violência doméstica, ela já entendia, na prática, que havia mulheres tentando apenas
sobreviver.
O curioso é que a mesma sociedade que condenava o
cabaré fechava os olhos para os homens respeitáveis que apareciam ali
escondidos na madrugada. Muito cidadão de paletó engomado criticava Ninete
durante o dia e, à noite, batia em sua porta procurando abrigo para suas
próprias misérias.
Ninete conhecia a hipocrisia humana como poucos.
E talvez por isso tivesse criado seu próprio código
de ética.
Ali dentro não admitia droga, exploração
descontrolada nem bagunça que colocasse suas meninas em risco. Quando algum
cabra se engraçava demais ou queria crescer no grito, ela resolvia sem
arrodeio.
Foi assim numa das noites mais comentadas de
Estância.
O clima já vinha azedando desde cedo. A bebida
subia quente na cabeça dos frequentadores e bastava uma palavra atravessada
para o inferno se abrir. Até os copos pareciam beber o medo naquela madrugada.
Quando a pancadaria começou, cadeira voando,
garrafa quebrando e gente correndo para todo lado, ninguém esperou polícia.
Muito menos herói.
Dona Ninete apareceu.
Empunhando uma espingarda.
Não tremia.
Não
gritava.
Tinha nos olhos a firmeza de quem já havia
atravessado guerras invisíveis demais para temer homem bêbado.
O silêncio caiu pesado quando ela disparou para
conter o tumulto.
Nem mesmo o famoso “Ranca unha”, considerado o
maior valentão da paróquia, teve coragem de enfrentá-la de peito aberto. Dizem
que levou um tiro nos pés como aviso. Recado curto, seco e inesquecível.
Depois daquela noite, o respeito virou lei.
Ninete continuou conduzindo seu negócio à sua
maneira. Trabalhava duro, ajudava quem podia e mantinha uma dignidade que muita
gente considerada “de família” jamais teve. Fazia caridade silenciosa, comprava
comida para famílias pobres da periferia e socorria mulheres abandonadas sem
nunca fazer propaganda disso.
Os moralistas, claro, fingiam não ver.
O tempo passou.
Os bordéis desapareceram.
As luzes se apagaram.
A BR-101 mudou.
Mas certas figuras não morrem completamente.
Ficam morando na memória popular, naquele
território invisível onde sobrevivem os personagens que desafiaram o
preconceito e construíram sua própria grandeza fora dos salões da
respeitabilidade.
Dona Ninete foi uma dessas mulheres.
Não precisou da aceitação da sociedade para se
tornar gigante.
A própria história encarregou-se de eternizá-la nos
anais de Estância.
7 de
março de 2023
Genílson Máximo
