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Mostrando postagens com o rótulo Crônica

Os aguadeiros e as antigas fontes de Estância

Imagem do Google: ilustrativa   Durante minha infância e pré-adolescência, testemunhei a presença frequente dos vendedores de água, conhecidos como “aguadeiros”, que transportavam barris de água em burros e jumentos, oferecendo seus serviços de porta em porta e de bairro em bairro. Esses aguadeiros anunciavam: “Olhe a água, freguesa! Água boa, fresquinha, limpinha!”. As pessoas saíam de suas casas com suas vasilhas, eram abastecidas e pagavam pelo serviço. Os aguadeiros desempenharam um papel importante no fornecimento de água potável às famílias, especialmente porque a maioria não tinha água encanada em suas residências. O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) só foi criado em 28 de novembro de 1967, durante o primeiro mandato do prefeito Raymundo Silveira Souza (1967–1970). Esse marco representou o início de uma nova era na vida dos estancianos e gradualmente reduziu a presença dos vendedores ambulantes de água. Mesmo após a criação do SAAE, muitas famílias continuaram c...

Cuidado que o circo chegou e o palhaço está de olho

  O palhaço ladrão de mulher Lá pelos idos das décadas de 70 e 80, o Brasil vivia sob a sombra pesada da Ditadura Militar. Havia censura, medo, vigilância e um silêncio forçado que tentava enquadrar até o riso. No interior, porém, onde a repressão chegava mais como eco do que como sirene, o povo encontrava brechas. Pequenas, improvisadas, mas eficazes. E uma dessas brechas vinha sobre rodas, levantando poeira, boato e expectativa: o circo itinerante. Quando a lona começava a ser armada, a cidade mudava de humor. As rádios AM tocavam Waldik Soriano cantando que não era cachorro, Odair José mandava parar de tomar a pílula, e aquilo, por si só, já era quase um ato revolucionário. Enquanto a MPB “intelectualizada” discutia o país nos salões, o povo digeria o mundo no picadeiro, entre gargalhadas, suspiros e desejos mal disfarçados. Aqui em Estância, os circos chegaram como chegam as histórias que ninguém esquece. Circo Garcia, Circo de Tourada, Circo Vostak, Circo Fumachú. Cada...

O Mistério do lobisomem da Ponte do Bonfim em Estância: um causo de terror e humor

  Final dos anos 1960. Estância, sul de Sergipe. Tempo em que o apito da centenária Fábrica Senhor do Bonfim era mais pontual que relógio suíço e mandava mais do que muito político da época. Bastava o silvo ecoar e pronto: as ruas se enchiam de homens e mulheres de farda azul, caminhando apressados para cumprir turno, trocar serviço ou voltar para casa com o corpo cansado e a alma pedindo um café quente. O bairro Senhor do Bonfim fervilhava em horários certos — três, quatro vezes ao dia — num vaivém quase coreografado, que tinha como passagem obrigatória a pequena ponte de madeira sobre o rio Piauitinga. Entre esses operários, destacavam-se as mulheres: trabalhadeiras, firmes, que encaravam turno da noite sem reclamar. Mas começaram a reclamar — e muito — quando um personagem inesperado resolveu entrar na história: o lobisomem da ponte. Havia também os maridos, homens simples, porém zelosos, que não tinham estudo de sobra, mas tinham relho, cacete e disposição. E, como guardião da ...

Dona Angelina vive na memória: dois anos do adeus à guardiã do xarope milagroso

  Dois anos após sua partida, Estância ainda se recorda da mulher que transformava cuidado em remédio. Dezembro sempre foi um mês de luz e celebração, tempo de reunir afetos e acender lembranças. Mas, em 17 de dezembro de 2023, o brilho natalino se tingiu de saudade. Naquele dia, aos 89 anos, partiu Dona Angelina , mulher de coração generoso e alma altruísta, cuja presença iluminava quem dela se aproximasse. Nascida em 10 de dezembro de 1934 , na charmosa Maruim, escolheu Estância como lar e chão de vida, onde construiu família ao lado do industrial Jorge Leite , com quem partilhou uma trajetória de amor e solidariedade. Mãe dedicada do engenheiro Ivan Leite , fez da bondade um ofício silencioso: não media esforços para amparar os que sofriam, oferecendo ajuda material, financeira ou, muitas vezes, apenas a ternura de um gesto que curava mais do que remédios.   O mês de seu nascimento e o mês de sua partida se unem num mesmo círculo de sentido — como se o Natal, com sua p...

O Gorgolejo do Peru: uma crônica da corte informal do prefeito

Imagem do verdadeiro peru   Numa cidadezinha interiorana onde até o vento conhece o nome de todo mundo, o prefeito resolveu instituir seu próprio e irresistível protocolo de governo: governar pelo convívio. Médico por formação e anfitrião por vocação (daqueles que sabem receitar antibiótico e feijão-tropeiro na mesma naturalidade), transformou sua casa numa espécie de prefeitura paralela — sem carimbo, sem protocolo, mas com mais cerveja gelada do que qualquer repartição pública jamais ousou sonhar. Nos feriados e fins de semana, ali se acotovelavam secretários municipais, correligionários e agregados, todos unidos pela santa trindade da política regional: conversa boa, amizade sincera e um rango que fazia o povo esquecer até das reclamações da última sessão da Câmara. O estalo das latinhas abrindo ecoava como hino nacional alternativo. E o perfume do feijão-tropeiro — já patrimônio cultural daquela cozinha — pairava como incenso gourmet sobre a área gourmet. Num desses encontros, ...

Deu Quiproquó no Forró de Chão Batido

  No ano da graça de 1976, no agreste profundo de um município que só aparece no mapa se a gente der zoom com fé, aconteceu uma das noites mais atrapalhadas já vistas num forrobodó regional. Tudo começou num baile animado por um trio de forró que era uma cópia sem vergonha, mas competente, d’Os 3 do Nordeste. O sanfoneiro era Ganso — um cabra magro feito vara de pescar, mas que tirava som da sanfona como se tivesse pacto com Santo Lua. No zabumba, vinha Mangangão, gordo que só ele, que suava igual tampa de chaleira; e no triângulo, o invocado Saruê, que tocava com tanta empolgação que vez em quando perdia o compasso e seguia mesmo assim, com cara de quem tava certo. A festança se deu numa casa de chão batido, com candeeiro pendurado no meio do salão, balançando como se dançasse também. O dono da casa, Seu Minervino, passava hora em hora com balde d’água pra molhar o chão, senão o chap-chap do chinelo do povo fazia levantar poeira que até gritava por socorro. Nesse tipo de f...

Ivan Leite: A Noite em que Tomar do Geru Escolheu a Mudança – II

  Por: Ivan Leite Aquela noite ainda vive em mim como uma chama que o tempo não apaga. Era época de campanha, e eu, então deputado estadual, estava em cima da carroceria de um caminhão, discursando para a multidão que se espremia na praça de Tomar do Geru. O ar carregava o cheiro de poeira, gasolina e esperança. Quando eu terminasse, seria a vez de Pedrinho Balbino — o candidato a prefeito — falar. A cidade parecia conter a respiração, como se pressentisse que algo maior do que um simples comício estava prestes a acontecer. No meio do meu discurso, senti uma presença atrás de mim. Uma voz apressada, quase sussurrando, disse: — Deputado, pare de falar. O delegado mandou avisar que não pode comício depois da meia-noite. Olhei para o relógio: já passava da hora. Mas, sem interromper a fala, apenas girei o corpo e respondi, firme: — Diga a ele que o horário só é limitado até a meia-noite no último dia de campanha. E hoje ainda não é o último. Continuei. As palavras ganhavam fo...

Zé Combrogó: o facão, os tambores e os fantasmas da rua do cemitério

  Quando Zé Combrogó conheceu Etelvina, o mundo parou. Não literalmente — a terra seguiu girando, a oficina seguia lotada e o Opala do sargento ainda fazia barulho de chocalho —, mas o coração do cabra deu aquela falhada de pistão cansado na friagem da manhã. Etelvina era filha do carroceiro Buiu – nome de quem já carrega nas costas tanto sabedoria quanto carga em subida. Ela tinha um sorriso que fazia até Santo Antônio dar uma repensada nos votos. Pele preta feito noite sem lua, olhar de quem tem conexão direta com os ancestrais e cabelo de comercial de xampu que nunca chega na prateleira da farmácia. Era o tipo de mulher que você olha e pensa: “rapaz... isso é patrimônio tombado pelo coração da república.” Casaram-se no grito do amor e na teimosia que só a paixão rega. Zé pediu a mão, o braço e o que mais tivesse disponível. A vida de casado começou numa casinha simples, honesta, e, por puro deboche do destino, plantada atrás de um cemitério. Isso mesmo: um cemitério, como qu...

A mangueira de Jorge Leite: fruto, memória e silêncio cantante

  No coração da Praça Princesa Isabel, no bairro Santa Cruz, existe uma mangueira que segue firme, soberana, como guardiã do tempo. Continua ali — frondosa, altiva, exuberante. Mas o que ela já viveu... ah, isso eu conto agora, enquanto olho pra ela daqui mesmo, de onde escrevo. Ela sempre esteve ali, bem em frente à antiga casa do saudoso senador Júlio Leite — residência onde Dr. Jorge Leite morou por toda a vida. Sem dúvida nenhuma, foi o zelador sentimental dessa praça. Ninguém sabe ao certo quantos anos ela tem. Ainda não sei! Mas lembro bem da sua copa carregada, especialmente durante a estação das mangas. Era como se o céu se escondesse entre os galhos, de tanto fruto madurinho, amarelo, com aquele perfume doce que tomava conta do ar. Bastava uma cair no chão com aquele sonoro “buf” — e pronto: a criançada corria, disputando a fruta como se fosse troféu. Jorge Leite, sempre discreto, gostava de assistir a tudo da sua varanda. Ficava ali, sentado, vendo os passarinh...

Maria Rosa, a Rosa de Carretéis: flor que jamais murcha na memória do filho

  Houve um tempo em que a vida não se media em relógios, mas em chuvas que tardavam e colheitas que se esperavam. Nesse tempo, nasceu no povoado Carretéis, em Itabaianinha, agreste de Sergipe, uma menina chamada Maria Rosa. Filha do agricultor José Máximo, era feita de barro, sol e suor. Cresceu entre raízes de mandioca e sacas de farinha. Não teve escola nem caderno, mas aprendeu com a enxada e a reza, com o silêncio das noites cortadas pelo coaxar dos sapos e o sonho de uma vida mais justa. Desde cedo, a menina olhava o horizonte como quem pressentia que a vida lhe pediria mais. “Deus me fez pequena de corpo, mas grande de coragem” , pensava. Aos dezoito anos, partiu com a mala leve, carregando mais coragem que roupas. Aracaju a recebeu com as portas do trabalho abertas, mas não as da facilidade. Tornou-se empregada doméstica em casas de família, servindo com dignidade, sem perder o brilho dos olhos cor de mel. Ali conheceu um homem e, dele, a esperança de uma gravidez. Mas o...

O esguicho do caldo do pitu me fez perder a camisa nova

Num desses dias em que a inspiração nos dá um sacolejo no juízo, resolvi sacudir as lembranças, espanar o pó do tempo e, entre uma linha e outra, compus essa crônica para eternizar um episódio que, ao meu ver, é da mais pura essência faceciosa. Era tarde de um domingo, 23 de maio de 2010, e a cidade de Gumercindo Bessa estava num rebuliço só. Pelos quatro cantos se ouvia o fuxico da campanha eleitoral que se aproximava. Os festejos juninos já batiam à porta, e em cada beco, rua e esquina, respirava-se uma mistura de política com aquele gostinho de "Salva Junina", tradição das boas que fecha com chave de ouro o mês de maio. Naquele dia, o telefone tocou. Do outro lado, a voz já conhecida do meu amigo — o sempre atencioso médico e forrozeiro de carteirinha — doutor Gilson Andrade. Perguntou: — E aí, o que tá fazendo? Respondi com sinceridade: — Tô dando bando no cachorro! Riu e, sem pestanejar, me chamou para acompanhá-lo numa visita à casa da amiga Maria do Flau, ali ...