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Mostrando postagens com o rótulo Crônica

Dona Angelina vive na memória: dois anos do adeus à guardiã do xarope milagroso

  Dois anos após sua partida, Estância ainda se recorda da mulher que transformava cuidado em remédio. Dezembro sempre foi um mês de luz e celebração, tempo de reunir afetos e acender lembranças. Mas, em 17 de dezembro de 2023, o brilho natalino se tingiu de saudade. Naquele dia, aos 89 anos, partiu Dona Angelina , mulher de coração generoso e alma altruísta, cuja presença iluminava quem dela se aproximasse. Nascida em 10 de dezembro de 1934 , na charmosa Maruim, escolheu Estância como lar e chão de vida, onde construiu família ao lado do industrial Jorge Leite , com quem partilhou uma trajetória de amor e solidariedade. Mãe dedicada do engenheiro Ivan Leite , fez da bondade um ofício silencioso: não media esforços para amparar os que sofriam, oferecendo ajuda material, financeira ou, muitas vezes, apenas a ternura de um gesto que curava mais do que remédios.   O mês de seu nascimento e o mês de sua partida se unem num mesmo círculo de sentido — como se o Natal, com sua p...

O Gorgolejo do Peru: uma crônica da corte informal do prefeito

Imagem do verdadeiro peru   Numa cidadezinha interiorana onde até o vento conhece o nome de todo mundo, o prefeito resolveu instituir seu próprio e irresistível protocolo de governo: governar pelo convívio. Médico por formação e anfitrião por vocação (daqueles que sabem receitar antibiótico e feijão-tropeiro na mesma naturalidade), transformou sua casa numa espécie de prefeitura paralela — sem carimbo, sem protocolo, mas com mais cerveja gelada do que qualquer repartição pública jamais ousou sonhar. Nos feriados e fins de semana, ali se acotovelavam secretários municipais, correligionários e agregados, todos unidos pela santa trindade da política regional: conversa boa, amizade sincera e um rango que fazia o povo esquecer até das reclamações da última sessão da Câmara. O estalo das latinhas abrindo ecoava como hino nacional alternativo. E o perfume do feijão-tropeiro — já patrimônio cultural daquela cozinha — pairava como incenso gourmet sobre a área gourmet. Num desses encontros, ...

Deu Quiproquó no Forró de Chão Batido

  No ano da graça de 1976, no agreste profundo de um município que só aparece no mapa se a gente der zoom com fé, aconteceu uma das noites mais atrapalhadas já vistas num forrobodó regional. Tudo começou num baile animado por um trio de forró que era uma cópia sem vergonha, mas competente, d’Os 3 do Nordeste. O sanfoneiro era Ganso — um cabra magro feito vara de pescar, mas que tirava som da sanfona como se tivesse pacto com Santo Lua. No zabumba, vinha Mangangão, gordo que só ele, que suava igual tampa de chaleira; e no triângulo, o invocado Saruê, que tocava com tanta empolgação que vez em quando perdia o compasso e seguia mesmo assim, com cara de quem tava certo. A festança se deu numa casa de chão batido, com candeeiro pendurado no meio do salão, balançando como se dançasse também. O dono da casa, Seu Minervino, passava hora em hora com balde d’água pra molhar o chão, senão o chap-chap do chinelo do povo fazia levantar poeira que até gritava por socorro. Nesse tipo de f...

Ivan Leite: A Noite em que Tomar do Geru Escolheu a Mudança – II

  Por: Ivan Leite Aquela noite ainda vive em mim como uma chama que o tempo não apaga. Era época de campanha, e eu, então deputado estadual, estava em cima da carroceria de um caminhão, discursando para a multidão que se espremia na praça de Tomar do Geru. O ar carregava o cheiro de poeira, gasolina e esperança. Quando eu terminasse, seria a vez de Pedrinho Balbino — o candidato a prefeito — falar. A cidade parecia conter a respiração, como se pressentisse que algo maior do que um simples comício estava prestes a acontecer. No meio do meu discurso, senti uma presença atrás de mim. Uma voz apressada, quase sussurrando, disse: — Deputado, pare de falar. O delegado mandou avisar que não pode comício depois da meia-noite. Olhei para o relógio: já passava da hora. Mas, sem interromper a fala, apenas girei o corpo e respondi, firme: — Diga a ele que o horário só é limitado até a meia-noite no último dia de campanha. E hoje ainda não é o último. Continuei. As palavras ganhavam fo...

Zé Combrogó: o facão, os tambores e os fantasmas da rua do cemitério

  Quando Zé Combrogó conheceu Etelvina, o mundo parou. Não literalmente — a terra seguiu girando, a oficina seguia lotada e o Opala do sargento ainda fazia barulho de chocalho —, mas o coração do cabra deu aquela falhada de pistão cansado na friagem da manhã. Etelvina era filha do carroceiro Buiu – nome de quem já carrega nas costas tanto sabedoria quanto carga em subida. Ela tinha um sorriso que fazia até Santo Antônio dar uma repensada nos votos. Pele preta feito noite sem lua, olhar de quem tem conexão direta com os ancestrais e cabelo de comercial de xampu que nunca chega na prateleira da farmácia. Era o tipo de mulher que você olha e pensa: “rapaz... isso é patrimônio tombado pelo coração da república.” Casaram-se no grito do amor e na teimosia que só a paixão rega. Zé pediu a mão, o braço e o que mais tivesse disponível. A vida de casado começou numa casinha simples, honesta, e, por puro deboche do destino, plantada atrás de um cemitério. Isso mesmo: um cemitério, como qu...

A mangueira de Jorge Leite: fruto, memória e silêncio cantante

  No coração da Praça Princesa Isabel, no bairro Santa Cruz, existe uma mangueira que segue firme, soberana, como guardiã do tempo. Continua ali — frondosa, altiva, exuberante. Mas o que ela já viveu... ah, isso eu conto agora, enquanto olho pra ela daqui mesmo, de onde escrevo. Ela sempre esteve ali, bem em frente à antiga casa do saudoso senador Júlio Leite — residência onde Dr. Jorge Leite morou por toda a vida. Sem dúvida nenhuma, foi o zelador sentimental dessa praça. Ninguém sabe ao certo quantos anos ela tem. Ainda não sei! Mas lembro bem da sua copa carregada, especialmente durante a estação das mangas. Era como se o céu se escondesse entre os galhos, de tanto fruto madurinho, amarelo, com aquele perfume doce que tomava conta do ar. Bastava uma cair no chão com aquele sonoro “buf” — e pronto: a criançada corria, disputando a fruta como se fosse troféu. Jorge Leite, sempre discreto, gostava de assistir a tudo da sua varanda. Ficava ali, sentado, vendo os passarinh...

Maria Rosa, a Rosa de Carretéis: flor que jamais murcha na memória do filho

  Houve um tempo em que a vida não se media em relógios, mas em chuvas que tardavam e colheitas que se esperavam. Nesse tempo, nasceu no povoado Carretéis, em Itabaianinha, agreste de Sergipe, uma menina chamada Maria Rosa. Filha do agricultor José Máximo, era feita de barro, sol e suor. Cresceu entre raízes de mandioca e sacas de farinha. Não teve escola nem caderno, mas aprendeu com a enxada e a reza, com o silêncio das noites cortadas pelo coaxar dos sapos e o sonho de uma vida mais justa. Desde cedo, a menina olhava o horizonte como quem pressentia que a vida lhe pediria mais. “Deus me fez pequena de corpo, mas grande de coragem” , pensava. Aos dezoito anos, partiu com a mala leve, carregando mais coragem que roupas. Aracaju a recebeu com as portas do trabalho abertas, mas não as da facilidade. Tornou-se empregada doméstica em casas de família, servindo com dignidade, sem perder o brilho dos olhos cor de mel. Ali conheceu um homem e, dele, a esperança de uma gravidez. Mas o...

O esguicho do caldo do pitu me fez perder a camisa nova

Num desses dias em que a inspiração nos dá um sacolejo no juízo, resolvi sacudir as lembranças, espanar o pó do tempo e, entre uma linha e outra, compus essa crônica para eternizar um episódio que, ao meu ver, é da mais pura essência faceciosa. Era tarde de um domingo, 23 de maio de 2010, e a cidade de Gumercindo Bessa estava num rebuliço só. Pelos quatro cantos se ouvia o fuxico da campanha eleitoral que se aproximava. Os festejos juninos já batiam à porta, e em cada beco, rua e esquina, respirava-se uma mistura de política com aquele gostinho de "Salva Junina", tradição das boas que fecha com chave de ouro o mês de maio. Naquele dia, o telefone tocou. Do outro lado, a voz já conhecida do meu amigo — o sempre atencioso médico e forrozeiro de carteirinha — doutor Gilson Andrade. Perguntou: — E aí, o que tá fazendo? Respondi com sinceridade: — Tô dando bando no cachorro! Riu e, sem pestanejar, me chamou para acompanhá-lo numa visita à casa da amiga Maria do Flau, ali ...

O “Labisone” da Fonte Nova

Imagem gerada pela IA   No povoado de nome bordado — Flor de Veado — vive Keké, 22 anos, forte como pé de umbu. Trabalha na cidade durante a semana. Na sexta, volta e vira dono do terreiro. É baixinho, vaidoso e falante. Além de bom de serviço, mantém o galinheiro em ordem de prateleira. Cria galinha caipira, capão e galo. Tira ovo fresco todo dia. Na roça, cultiva batata, macaxeira, cenoura, couve, quiabo e um coentro cheiroso que faz a vizinhança salivar. Conta com a ajuda dos dois irmãos e do pai, barbeiro de conversa afiada. Se tem coisa que Keké não perde é prosa com rabo de saia. Namora muito e, como galo-anão, só se engraça com mulher mais alta. Mania que dá trabalho. No sábado, o sítio vira feira. Gente de todo canto aparece atrás da galinha gorda, da macaxeira fresca e da conversa comprida. Keké se exibe. — Essas galinhas são criadas com amor, milho e respeito! — anuncia, peito estufado. O que faz a roda ferver são as histórias. Quando os amigos juntam e a cerveja ...

Popó, o Engraxate Monumental de Estância

Imagem ilustrativa - IA   Por Genílson Máximo — 24 de maio de 2025   Estância, essa joia do sul sergipano, parece ter saído das páginas de um romance de Jorge Amado — não por acaso, o escritor baiano se refugiou aqui nos anos 1930, fugindo da repressão do Estado Novo. Encantou-se. Disse que nosso povo era “o mais cordial do mundo” e, segundo os bastidores da literatura, teria se inspirado em figuras estancianas para criar personagens como Tieta e os jovens de Capitães da Areia .   E não é difícil entender o fascínio. Estância tem vocação pra tudo: indústria têxtil, agricultura, pecuária, produção de cítricos, festa junina com 30 dias de fogueira acesa, carnaval com escolas de samba — o único do interior sergipano —, berço da imprensa estadual, pioneira na radiodifusão do interior e sede de uma diocese que abrange mais de 15 municípios. Mas, se há algo que Estância produz como ninguém, é personagem. Foi num daqueles dias de janeiro em que até a sombra da catedral s...