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| Imagem do verdadeiro peru |
Numa cidadezinha
interiorana onde até o vento conhece o nome de todo mundo, o prefeito resolveu
instituir seu próprio e irresistível protocolo de governo: governar pelo
convívio. Médico por formação e anfitrião por vocação (daqueles que sabem
receitar antibiótico e feijão-tropeiro na mesma naturalidade), transformou sua
casa numa espécie de prefeitura paralela — sem carimbo, sem protocolo, mas com
mais cerveja gelada do que qualquer repartição pública jamais ousou sonhar.
Nos feriados e fins
de semana, ali se acotovelavam secretários municipais, correligionários e
agregados, todos unidos pela santa trindade da política regional: conversa boa,
amizade sincera e um rango que fazia o povo esquecer até das reclamações da
última sessão da Câmara. O estalo das latinhas abrindo ecoava como hino
nacional alternativo. E o perfume do feijão-tropeiro — já patrimônio cultural
daquela cozinha — pairava como incenso gourmet sobre a área gourmet.
Num desses
encontros, a mesa estava tão extravagante que parecia ter sido montada por uma
comissão de festa junina. Mas a tarde, que prometia ser
só de fartura e boas risadas, foi rasgada de repente pela chegada inusitada de
um vereador trazendo um presente peculiar: um peru. Não um peru qualquer — um
peru “de raça, reprodutor”, segundo ele, com a pompa de quem entrega uma obra
pública inaugurada.
O bicho, um
autêntico gladiador da zootecnia, já entrou na festa arrepiado, desconfiado e
com um ar de que não estava gostando da playlist. Talvez samba e pagode não
fossem sua religião. De asas semiabertas e aquele andar arrogante típico de
quem se acha dono do galinheiro (literalmente), o peru rapidamente roubou da
política o protagonismo da tarde.
E então aconteceu:
como se tivesse entendido errado uma piada interna, ele cravou o olhar no
Secretário de Esportes e, sem aviso, partiu pra guerra.
O Secretário — um
atleta resistente, mas aparentemente não treinado para duelos com aves
temperamentais — tentou um drible digno de final de campeonato. Mas o peru,
numa performance que contrariava qualquer manual de comportamento avícola,
manteve a perseguição com um gorgolejo estridente que virou tema musical
improvisado do evento. O quintal virou pista de corrida; a galera gargalhava
como se estivesse diante de um stand-up animal; e a fuga terminou com o
Secretário saltando a borda da piscina e caindo na água de um jeito que nem
replay em câmera lenta salvaria.
A bagunça não parou
aí. O peru, ainda possuído por uma força que só podemos classificar como
“energia de protagonista”, avançou pela área de lazer e assustou dois gansos
pacíficos, que mergulharam esbaforidos para não virarem vítimas colaterais do
caos. Só quando um assessor, que claramente nasceu para resolver emergências
absurdas, conseguiu agarrar a ave, o ambiente voltou a respirar.
Mas aí surgiu a
grande questão do dia: o que fazer com o peru?
O Secretário de Obras, canalizando seu lado carnívoro, sugeriu com fina
crueldade que o bicho fosse direto pra ceia. Mas Dorotéia — uma dama influente da
comunidade, sempre pronta para salvar causas e criaturas — reivindicou a guarda
do animal, prometendo acolhê-lo em seu sítio e evitar que ele parasse na
panela. E assim o debate, que começou em tom de churrasco, virou uma inesperada
sessão de filosofia moral entre pragmatismo e compaixão.
Confinado no
galinheiro, ainda emitindo seu “glu-glu” indignado, o peru deu ao encontro uma
estranha unidade. O almoço, que deveria ser apenas mais um, virou narrativa
mítica — principalmente depois que as gargalhadas se firmaram como trilha
sonora oficial do pós-caos. Entre caretas e olhos marejados de tanto rir,
alguém decretou: o peru estava “encabocado”.
E, convenhamos, não
existia palavra mais perfeita. Não era só susto. Não era só brabeza. Era aquela
mistura irresistível de timidez ferida com coragem inoportuna, típica de quem
foi catapultado a um papel que nunca pediu — como ser atração da tarde e
potencial prato principal ao mesmo tempo.
Nascem daí as
melhores teorias, claro. E logo alguém soltou a sentença que virou consenso
geral: aquele peru certamente vinha de um terreiro de umbanda. O que
explicaria, segundo os presentes, o ímpeto com que enfrentou o Secretário de
Esportes, bigodes tortos, gravata borboleta desalinhada e dignidade
parcialmente comprometida. O peru não era só um peru. Era um guardião ofendido,
um vigilante acidental defendendo uma honra mística que ninguém ali tinha
ousado atacar.
E assim, entre
feijão-tropeiro, sambinha, latinhas estalando e um drama aviário de proporções
épicas, a tarde ganhou sua fábula oficial: o dia em que um peru encabocado
virou protagonista de uma cidade inteira na residência do prefeito.
Por:
Genílson Máximo
Em 22 de agosto de 2024.
