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Dona Angelina vive na memória: dois anos do adeus à guardiã do xarope milagroso

 

Dois anos após sua partida, Estância ainda se recorda da mulher que transformava cuidado em remédio.


Dezembro sempre foi um mês de luz e celebração, tempo de reunir afetos e acender lembranças. Mas, em 17 de dezembro de 2023, o brilho natalino se tingiu de saudade. Naquele dia, aos 89 anos, partiu Dona Angelina, mulher de coração generoso e alma altruísta, cuja presença iluminava quem dela se aproximasse. Nascida em 10 de dezembro de 1934, na charmosa Maruim, escolheu Estância como lar e chão de vida, onde construiu família ao lado do industrial Jorge Leite, com quem partilhou uma trajetória de amor e solidariedade. Mãe dedicada do engenheiro Ivan Leite, fez da bondade um ofício silencioso: não media esforços para amparar os que sofriam, oferecendo ajuda material, financeira ou, muitas vezes, apenas a ternura de um gesto que curava mais do que remédios.

 O mês de seu nascimento e o mês de sua partida se unem num mesmo círculo de sentido — como se o Natal, com sua promessa de renascimento, a tivesse chamado de volta à luz.

 Em um desses dias em que somos tomados por uma forte gripe — dessas que deixam o cabra “no mato sem cachorro”, com tosse, febre, dores de cabeça, nariz entupido e rouquidão — nem sempre o remédio de farmácia faz efeito. Nessas horas, as antigas receitas da vovó parecem chegar como bênção.

 Foi numa dessas ocasiões que me vi acometido por uma gripe braba. Já tinha ido ao médico, que me passou uma lista de medicamentos e recomendações. A mudança de estação, entre maio e junho, costuma fazer vítimas aqui no Nordeste — e as farmácias, claro, agradecem.

 Mesmo tomando comprimidos, cápsulas, xaropes e soluções de todo tipo, a tosse insistia. Há mais de quinze dias gripado, já sentia dor no tórax e na cabeça de tanto tossir. A voz, rouca, mal saía.

 Numa certa manhã, fui ao Escritório da Sulgipe e, por lá, encontrei o doutor Ivan Leite.

— Já tomou o xarope feito por mamãe? — perguntou ele.
De imediato, pegou o celular e fez uma ligação:
— Mamãe, ainda tem daquele xarope que a senhora prepara? Se tiver, mande um para Genílson — recomendou.

À tardinha, seu Val, motorista de Dona Angelina, apareceu em casa com uma garrafinha do tal xarope.

 Eu, que já tinha tentado de tudo, confesso que não esperava milagres. Mas à noite tomei uma colher de sopa — e pela manhã, outra dose. Em apenas dois dias, a melhora era nítida. Nem precisei terminar os 200 ml do frasco: a cura foi quase instantânea. Fiquei bom, completamente bom, daquela gripe que me atormentara por semanas. Isso foi em 2013. E, sinceramente, acho que ainda carrego o efeito daquele xarope milagroso, pois desde então a gripe tem mudado de endereço.

 Curioso, fui procurar Dona Angelina para desvendar o segredo da receita. Ela, com seu sorriso maroto, contou apenas parte do mistério:

 — Eu coloco búzio de bananeira, cebola roxa, folha de alfavaca, capim-santo, acerola, pitanga, limão, cravo, mel de abelha, cenoura, mastruz, beterraba, açúcar... — interrompeu-se rindo — Não posso contar mais, senão entrego todo o segredo!

 Em nossa conversa, revelou também o ritual de preparo: levar ao fogo, deixar cozinhar por dois dias, observar o ponto certo, abrandar, coar, esperar esfriar e, só então, colocar nas garrafinhas plásticas compradas em Aracaju, destinadas especialmente a essa finalidade. Depois, conservar na geladeira.

 Pela descrição, percebia-se que o preparo era uma arte — exigia paciência, saber e, sobretudo, carinho. Dona Angelina falava desse ofício com alegria genuína. Produzia o xarope há mais de vinte anos e se orgulhava de ajudar quem a procurava. Pessoas de todas as partes recorriam a ela: o padre Nivaldo, de Tobias Barreto; a doutora Celly, de Aracaju; o médico Gilson Andrade; José Félix, presidente da Lira; seu filho Ivan Leite; e tantos outros amigos e admiradores.

 Mulher de coração afetuoso e espírito solidário, Dona Angelina deixou marcas profundas na vida estanciana. Seu legado não se resume à receita que curava corpos — mas à generosidade com que curava almas. Fez da compaixão um modo de viver.

 Que me perdoem os leitores, mas continuo sendo fã dessa senhora que nos ensinou que o verdadeiro remédio da vida é o amor. No dia 17 de dezembro de 2023, ela partiu serenamente, deixando saudade e gratidão. Descansa agora no Cemitério Colina da Saudade, em Aracaju, após uma existência repleta de luz, serviço e ternura.

Dois anos sem Dona Angelina — e ainda é possível sentir o perfume de alfavaca e mel pairando no ar, lembrando-nos de que há curas que não cabem em garrafas.

 

Por: Genílson Máximo