Estância. Só de falar, já escorre
uma sonoridade elegante, dessas que não tropeçam na língua nem causam vergonha
alheia fonética. Um nome que se impõe com suavidade — coisa rara.
Dizem que veio de um mexicano,
Pedro Homem da Costa, sujeito que passou por essas bandas quando Estância ainda
era uma extensão de Santa Luzia. Pode ter sido batizada assim por ser ponto de
parada, respiro no meio das longas e cansativas rotas comerciais de
antigamente. Um lugar onde o corpo descansava e, sem querer, a história
começava a se instalar.
Dom Pedro II não economizou nos
elogios: chamou a cidade de “Jardim de Sergipe”. E não foi por gentileza
imperial. Estância carrega nas suas entranhas um patrimônio arquitetônico de
fazer qualquer cidade grande corar de inveja — sobrados azulejados, becos que
parecem sussurrar segredos e ruas que já viram mais história do que muito livro
por aí.
Sim, muita coisa se perdeu.
Demoliram, mutilaram, apagaram pedaços importantes. Mas Estância tem uma
teimosia bonita: resiste.
E resiste com festa. Com barulho.
Com fogo — literalmente.
É a terra do São João que não
pede licença, do barco de fogo que corta o céu como se fosse dono dele, dos
grupos folclóricos que mantêm viva uma cultura que não aceita ser arquivada.
Aqui, a tradição não fica em museu. Ela anda, canta, dança — e às vezes
explode.
E tem mais: em Estância, até o
nome das ruas parece ter personalidade própria.
As ruas de Estância:
pequenas cápsulas do tempo
No programa Sábado Esperança,
da Rádio Esperança, alguém teve a brilhante ideia de fazer algo simples e
poderoso: ler, em voz alta, os nomes das ruas da cidade.
Parece pouco? Não é.
Era uma forma de manter acesa a
chama da memória — principalmente para os mais jovens, que crescem sem perceber
que caminham sobre história todos os dias.
Olha só esses nomes:
Rua do Arame
Rua dos Ferreiros
Rua da Opa
Rua do Cravo
Rua da Rosa
Rua da Baixa
Rua do Sol
Rua da Barra
Rua do Areal
Rua do Capim Macio
Rua do Quilombo
Rua do Gato Preto
Rua do Gravatá
Rua do Aquidabã
Rua do Bumbunrum
Rua da Chapada
Rua do Sangue
Rua da Alegria
Rua do Limoeiro
Rua do Coqueiro
Rua da Jaqueira
Rua do Queiroz
Rua do Xixio
Rua dos Pilares
Jardim Velho
Rua do Pernambuquinho
Rua do Malheiro
Rua da Tamanca
Rua do Triunfo
Rua do Cajueirinho
Caminho do Rio
Rua da Miranga
Rua do Ouro
Rua Formosa
Rua da Usina
Rua do ABC
Alto da Conceição
Rua do Pompeu
Beco das Canas
Beco das Panelas
Beco da Rendeira
Rua da Arrepiada
Cabeça do Boi
Beco da Galinha Morta (poético? nem tanto. memorável? com certeza)
Isso não é só um mapa. É um
arquivo vivo.
Estância é feita de gente que
trabalha, que acolhe, que celebra — e que acredita. Um povo profundamente
cristão, guiado pela devoção à sua padroeira, Nossa Senhora de Guadalupe,
Imperatriz da América Latina.
Aqui, fé e cultura não brigam.
Elas andam juntas, de mãos dadas, no meio da rua.
E como se não bastasse, até Jorge
Amado resolveu dar uma passada por ali, lá pelos anos 1930. Não ficou indiferente.
Escreveu parte de Capitães da Areia e largou essa definição que é
quase um selo de qualidade:
“Estância, cidade quase idílica,
onde habita o povo mais cordial do mundo.”
Tá lá, eternizada em bronze na
Praça Barão do Rio Branco — porque elogio desse não se deixa escapar.
Memória não é luxo. É necessidade.
Mas nem tudo são flores (apesar
do “Jardim”). Parte dessa riqueza — principalmente a imaterial — vai sendo
esquecida, ignorada, deixada de lado como se fosse detalhe.
E não é.
Fica a pergunta, meio incômoda,
mas necessária: até quando?
Não seria a hora de investir mais
em pesquisa, em registro, em valorização dessa herança? Porque memória não se
preserva sozinha. E quando se perde, não tem como baixar de novo.
A historiadora Emília Viotti da
Costa já deu o recado, sem rodeio:
“Um povo sem memória é um povo
sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no
futuro, os mesmos erros do passado.”
Recado dado.
No fim das contas…
Estância não é só uma cidade. É
um organismo vivo, feito de ruas que falam, festas que gritam, fé que sustenta
e histórias que insistem em não morrer.
Que essas ruas continuem ecoando
o passado — não como nostalgia, mas como guia.
Porque esquecer é fácil.
Difícil — e necessário — é
lembrar.
Por: Genílson Máximo.
Em 29 de março de 2026.
