Com a triste partida do estimado Dr. Jorge Leite, em 15/08/2021, recordei-me de um acontecimento que remonta a cerca de duas décadas. Em um final de expediente, quando o dia já se inclinava para o crepúsculo, o som de palmas ecoou além do portão da emissora. Prontamente, atendi ao chamado e me deparei com a grata visita do meu patrão, Dr. Jorge Leite, que retornava da Sulgipe, trajando seu característico terno azul.
Ele me entregou duas revistas da ABERT —
Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão — e revelou estar de
passagem, prometendo uma visita para uma conversa mais longa em breve.
Optando por não adentrar, falou do propósito de
sua visita: “Adquirimos um novo transmissor para a Rádio Esperança. É a
vanguarda do mercado, transistorizado e de alta qualidade. Passei aqui para
dividir essa boa notícia com você”, anunciou.
Indaguei sobre o prazo previsto para a entrega,
ao que ele respondeu que o fabricante havia estipulado 90 dias. Estávamos em
maio de 2003, e a expectativa era que o novo equipamento fosse entregue até
agosto daquele ano.
Quem teve o privilégio de conviver com Dr. Jorge
Leite sabe quão intensa era sua paixão pela Rádio Esperança. “A Rádio Esperança
é meu brinquedo caro”, ele costumava dizer. Era um apreciador de artistas como Luiz
Ayrão, Luiz Américo, Clara Nunes, Gilson de Souza, Luiz Gonzaga, Roberto
Carlos, Ângela Maria, entre outros.
Em seu programa “A Esperança Conversa com Você”,
quando se comemorava o aniversário de um de seus artistas favoritos, ele
dedicava a programação à carreira do homenageado, compartilhando curiosidades e
destacando os maiores sucessos. O programa era transmitido diariamente, às
12h30 e às 21h, e abordava uma ampla variedade de temas, incluindo tecnologia,
comportamento social, educação e saúde. Era admirador de Getúlio Vargas.
Costumava produzir o programa em sua própria
casa, ao meio-dia, antes do almoço. Saulo Oliveira, Valter Santos e eu nos
revezávamos na preparação das pautas. De posse de um gravador portátil da marca
Aiko e fitas cassete, aguardávamos do lado de fora de sua residência. Enquanto
esperávamos, éramos brindados com a brisa suave que vinha da mangueira e do
jardim em frente à casa.
Ao chegar, Dr. Jorge nos convidava a entrar, e o
programa era produzido antes mesmo de ele almoçar. Às vezes, ao se ouvir o
tilintar de pratos e talheres na cozinha, ele lembrava com bom humor: “Estou
gravando!”. Jamais saíamos de lá sem receber o carinho de uma água de coco ou
um suco de acerola, nem sem saborear as deliciosas cocadas de Dona Angelina.
Nos primeiros dias do ano, era tradição ele
organizar uma festa para os funcionários em sua fazenda, no povoado Crasto. Era
um dia repleto de petiscos, frutas e água de coco para mais de 200 pessoas.
Havia sorteios de cestas natalinas entre os funcionários e distribuição de
brinquedos às crianças. O evento era marcado por sorrisos radiantes estampados
em todos os rostos.
Esteiras eram espalhadas sob árvores frondosas;
mesas e cadeiras, dispostas estrategicamente; e uma variedade de pratos
deliciosos era servida com abundância. Redes armadas nas dependências da casa
permitiam aos convidados relaxar e desfrutar da atmosfera. Alguns optavam por
passeios a cavalo ou de lancha, enquanto outros preferiam se refrescar nas
águas límpidas do rio Piauí, que beijava o alpendre da residência.
Deitado em sua rede, Dr. Jorge observava a todos
com uma expressão de alegria evidente no rosto. Às vezes, ele circulava entre
as mesas, segurando uma bandeja, distribuindo com carinho as disputadas cocadas
de Dona Angelina.
Numa dessas ocasiões, cheguei por volta das onze
da manhã, e os convidados já desfrutavam das delícias oferecidas. Ao notar
minha presença, ele indagou sobre o atraso. Respondi que havia sido devido ao
trabalho. Ele me instruiu a acomodar minha família e retornar para uma
conversa.
Quando voltei, questionou-me sobre a Rádio
Esperança e as medidas que estávamos tomando para melhorar a qualidade do som.
Naquela época, José Félix, Washington e eu éramos responsáveis pela emissora,
que enfrentava problemas técnicos recorrentes com o antigo transmissor
valvulado, o qual frequentemente apresentava defeitos e comprometia a qualidade
do som.
Sugeri a aquisição de um novo transmissor, mesmo
ciente do alto custo envolvido, considerando os benefícios que proporcionaria.
Durante a conversa, uma terceira pessoa manifestou opinião contrária,
defendendo a continuidade dos reparos no equipamento antigo. “Dr. Jorge, ele
não sabe o quanto custa um transmissor novo”, disse um dos interlocutores.
Nesse momento, o clima da conversa azedou.
Horas mais tarde, Dr. Jorge me chamou e expressou
seu apreço pela sugestão. Disse que era uma opinião que merecia ser ouvida. Com
um sorriso, retornou à sua rede.
No dia seguinte, segunda-feira, recebi um folheto
com os preços de transmissores novos, enviado por ele. Embora eu não saiba ao
certo se minha sugestão influenciou a decisão, naquela tarde de maio de 2003
ele visitou os estúdios da Rádio Esperança para compartilhar a notícia da
compra de um novo transmissor AM, transistorizado, com qualidade de som
equivalente à digital.
Genílson Máximo
Em 20 de agosto de 2021
