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O Mistério do lobisomem da Ponte do Bonfim em Estância: um causo de terror e humor

 

Final dos anos 1960. Estância, sul de Sergipe. Tempo em que o apito da centenária Fábrica Senhor do Bonfim era mais pontual que relógio suíço e mandava mais do que muito político da época. Bastava o silvo ecoar e pronto: as ruas se enchiam de homens e mulheres de farda azul, caminhando apressados para cumprir turno, trocar serviço ou voltar para casa com o corpo cansado e a alma pedindo um café quente.

O bairro Senhor do Bonfim fervilhava em horários certos — três, quatro vezes ao dia — num vaivém quase coreografado, que tinha como passagem obrigatória a pequena ponte de madeira sobre o rio Piauitinga.

Entre esses operários, destacavam-se as mulheres: trabalhadeiras, firmes, que encaravam turno da noite sem reclamar. Mas começaram a reclamar — e muito — quando um personagem inesperado resolveu entrar na história: o lobisomem da ponte.

Havia também os maridos, homens simples, porém zelosos, que não tinham estudo de sobra, mas tinham relho, cacete e disposição.

E, como guardião da memória, surge o senhor Almiro, antigo morador do bairro operário, homem de fala mansa, olhar atento e risada pronta, desses que contam um causo olhando de lado, como quem diz: “acredite se quiser, mas aconteceu”.

Diziam que o tal lobisomem aparecia sempre nos horários mais ingratos: às dez da noite e antes do sol dar as caras, por volta das seis da manhã. Ficava ali, na cabeceira da ponte do lado da fábrica, aproveitando-se da penumbra, do barulho do rio e do medo alheio. Não uivava, não mostrava os dentes — preferia coisa pior: assustava, apalpava, lambia e abraçava as operárias, num desrespeito que nem criatura do além teria o direito de cometer.

O matagal que começava na cabeceirada ponte servia de esconderijo perfeito. Era atacar e sumir, feito promessa de político em fim de mandato. Os burburinhos cresceram, as rezas também, e não faltou quem jurasse ter visto rabo, pelo e até olho vermelho brilhando no escuro.

Mas operária assustada vira estrategista. Quando não iam em grupo, passaram a chamar os maridos. E marido de operária, quando resolve agir, não chama padre nem delegado: chama os outros maridos.

Numa noite combinada, ficaram de atalaia. O silêncio era quebrado apenas pelo coaxar dos sapos e pelo rangido da ponte. Eis que o lobisomem surge, confiante, sem desconfiar que, daquela vez, a lua não estava a seu favor. Caiu direitinho na armadilha — e na peia. Relho cantou, pau estalou, cacete trabalhou. Tome-lhe, tome-lhe, tome-lhe, até a criatura, agora mais humana do que nunca, sair em disparada mato adentro, rio a fora pedindo socorro em língua bem diferente de uivo.

Segundo o senhor Almiro, que contava tudo rindo por baixo do bigode, o lobisomem nunca mais apareceu. Descobriu-se depois — e Estância nunca teve segredo que durasse muito — que o bicho era apenas um sujeito mal-intencionado, fantasiado de assombração para se aproveitar do medo alheio.

Depois da coça, sumiu da ponte, do bairro e, dizem, até da cidade. A ponte continuou rangendo, o apito da fábrica continuou mandando, e as operárias voltaram a atravessar o caminho com medo apenas do atraso no ponto.

E assim ficou provado, em Estância, que lobisomem pode até existir no imaginário, mas, quando encontra marido unido e relho afiado, vira apenas um causo — daqueles bons de contar e melhores ainda de rir.

 

Por: Genílson Máximo

Em 01 de janeiro de 2026