Há crônicas que nascem do saudosismo,
mas esta nasce, sobretudo, da admiração. Ela entrelaça dois tempos: o
turbulento romance de Dalva de Oliveira e Herivelton Martins nos anos 50 e a
lembrança vívida do meu mestre e amigo, Dr. Jorge Leite.
Engenheiro elétrico por formação, mas jornalista e radialista por vocação, o
proprietário da Rádio Esperança era um homem cujo faro para a comunicação
sempre o colocava à frente do seu tempo.
Em meados de 2009, o telefone do
estúdio tocou. Do outro lado da linha, direto de São Paulo, a voz inconfundível
do Dr. Jorge:
— "Estou em uma loja de LPs e
acabo de garimpar Dalva de Oliveira e Herivelton Martins. Você já ouviu falar
deles? Prepare a produção para o meu programa, 'A Esperança Conversa com Você'.
Vou contar essa história. Foi um furacão na época!"
Dr. Jorge não buscava apenas discos;
ele resgatava a memória afetiva do Brasil. Na semana seguinte, ele cruzou o
estúdio com os vinis debaixo do braço. Combinamos a gravação em sua residência,
ao meio-dia. Armado com as pesquisas impressas, um gravador e uma fita cassete,
fui ao encontro do homem que, embora tivesse vivido o apogeu daqueles artistas,
queria o rigor do detalhe para entregar o melhor ao seu ouvinte.
Enquanto gravávamos, a erudição do
Dr. Jorge brilhava. Ele narrava com precisão o duelo público entre o
"Patriarca do Samba" e a "Rainha da Voz". De um lado,
Herivelton — o gênio controlador e ciumento; do outro, Dalva — a alma expansiva
que não aceitava o silêncio como resposta. O que era uma briga conjugal transformou-se
no maior folhetim musical da MPB. Dr. Jorge comentava cada fato e, com a
maestria de quem entende o ritmo do rádio, introduzia as canções que eram
verdadeiros dardos verbais, como "Errei Sim" e "Atire a Primeira
Pedra".
Ao final de cada sessão, o rigor do
trabalho dava lugar à sua fidalguia característica. Dr. Jorge, o anfitrião
impecável, oferecia sempre um copo de água de coco gelada ou sucos frescos de
acerola, mangaba e cajá. Muitas vezes, eu saía de lá não apenas com a fita
gravada, mas com viçosas pencas de bananas colhidas na malhada de sua própria
casa — um gesto de generosidade que combinava com sua estatura humana.
O destino quis dar o veredito sobre o
seu tino jornalístico: apenas seis meses após a nossa gravação, em janeiro de
2010, a Rede Globo estreava a minissérie sobre o casal. Dr. Jorge Leite, com
sua sensibilidade de vanguarda, já havia contado essa história na Rádio
Esperança. Ele marcou um gol de placa antes mesmo do apito inicial da grande
mídia.
O Brasil parou para ver a minissérie,
mas nós, em Estância, já tínhamos parado para ouvir a voz de um homem que sabia
que o passado, quando bem contado, é sempre o melhor caminho para entender o
presente.
Por: Genílson Máximo.
Em 24 de março de 2026.
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