Tomar do Geru conhece uma dessas
noites.
Era outubro de 1992. A primavera avançava sobre o interior sergipano quando a
cidade se preparava para escolher um novo prefeito. As ruas estreitas,
acostumadas ao ritmo tranquilo dos dias, respiravam uma inquietação incomum.
Nas esquinas, nas portas das casas, nos bancos da praça e na feira, o assunto
era sempre o mesmo. Falava-se de política com a intensidade de quem sabia que
algo diferente estava para acontecer.
Durante cerca de vinte anos, o
poder político caminhara por uma mesma estrada. Parecia natural que assim
continuasse. Mas a História, vez ou outra, gosta de alterar seus próprios
caminhos.
Foi nesse cenário que surgiu a
candidatura de Pedrinho Balbino.
Seu nome começou a circular pelos
povoados, atravessou ruas de barro, ganhou as calçadas da cidade e encontrou
abrigo na esperança de muitos que desejavam experimentar um novo tempo. Quanto
mais a campanha crescia, mais pesado se tornava o ambiente ao seu redor. O
entusiasmo dos apoiadores convivia com o medo. Comentavam-se ameaças,
perseguições e tentativas de intimidar quem ousasse desafiar a ordem
estabelecida.
Ainda assim, a campanha
prosseguiu.
Chegou a última sexta-feira antes
da eleição.A Praça da Igreja Nossa Senhora do Socorro transformou-se em ponto
de encontro. Famílias inteiras saíram de casa. Crianças corriam entre os
adultos. Velhos conhecidos se cumprimentavam. Os carros de som espalhavam
discursos, músicas e promessas que se misturavam ao murmúrio da multidão.
Havia esperança naquele ajuntamento de gente simples.
Pouco depois da meia-noite, porém, o destino daquela noite
começou a mudar.
Uma viatura rompeu o movimento da praça.
O delegado desceu acompanhado de
policiais armados e caminhou decidido em direção aos equipamentos de som. Bastou
uma ordem para que os cabos dos microfones fossem cortados. As palavras que
ecoavam pelos alto-falantes desapareceram de repente.
O silêncio, às vezes, consegue
fazer mais barulho do que qualquer voz.
As pessoas se entreolharam sem
compreender. O riso desapareceu dos rostos. Pais aproximaram os filhos.
Mulheres recuaram instintivamente. Muitos buscaram proteção
atrás das árvores e ao redor da igreja. O medo, que até então caminhava
escondido pelos bastidores da campanha, mostrava-se, enfim, diante de todos.
No palanque, o tempo pareceu
suspenso.
Foi então que a voz do delegado
rompeu o silêncio da praça.
— Atirem! Estou mandando! —
ordenou, dirigindo-se aos policiais e sugerindo que atirassem contra Pedrinho
Balbino.
A ordem pairou no ar como um
golpe seco.
Os policiais não obedeceram.
Nenhuma arma foi disparada.
Por um breve instante, ninguém
respirava com naturalidade. O mundo parecia reduzido àquele espaço entre uma
ordem dada e um tiro que nunca aconteceu.
Foi nesse intervalo que a coragem
encontrou seu lugar.
Ivan Leite, então deputado
estadual, não pensou em cálculos nem em consequências. Aproximou-se de Pedrinho
Balbino, abraçou-o com firmeza e fez do próprio corpo um escudo. Sem perder
tempo, retirou o candidato do palanque e o conduziu até um veículo que seguiu
imediatamente para Aracaju.
A decisão foi tomada em segundos.
Talvez tenha sido a diferença
entre uma lembrança dolorosa e uma tragédia irreparável.
Enquanto o carro deixava a praça,
outro gesto de coragem surgia diante da multidão.
Um juiz de Direito colocou-se diante do delegado.
Os dois ficaram frente a frente,
de armas em punho.
As palavras romperam o silêncio
que ainda dominava a praça.
— Delegado, eu vou lhe prender!
A resposta veio carregada da
tensão daquele momento.
— O senhor não é nada aqui. Esta
não é sua comarca!
Ninguém sabia o que aconteceria
no segundo seguinte.
O medo caminhava entre as pessoas
como uma presença invisível.
Depois, aos poucos, a praça
começou a esvaziar.
Não houve música de
encerramento. Não houve aplausos.
Aquela noite terminou em
silêncio. Mas era um silêncio apenas aparente.
Nos dias que se seguiram, Tomar
do Geru inteiro passou a contar a mesma história. Ela atravessou as mesas das
cozinhas, percorreu as calçadas, ganhou as conversas na feira e encontrou lugar
nas lembranças de quem estivera ali. Antes mesmo de ser escrita, já fazia parte
da memória do povo. Então vieram as urnas.
Cada eleitor levou consigo a
lembrança daquela madrugada.
Quando a votação terminou, o
resultado revelou mais do que um vencedor. Revelou uma mudança. Com 2.761
votos, Pedrinho Balbino foi eleito prefeito, encerrando um longo ciclo político
no município. A vitória representava a alternância de poder desejada por muitos
e inaugurava uma nova etapa na vida administrativa de Tomar do Geru.
O tempo não conseguiu apagar aquela noite.
.
Por Genílson Máximo — 4 de setembro de 2023.
