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O gol de placa de Dr. Jorge Leite: entre Dalva, Herivelton e a Rádio Esperança

    Há crônicas que nascem do saudosismo, mas esta nasce, sobretudo, da admiração. Ela entrelaça dois tempos: o turbulento romance de Dalva de Oliveira e Herivelton Martins nos anos 50 e a lembrança vívida do meu mestre e amigo, Dr. Jorge Leite . Engenheiro elétrico por formação, mas jornalista e radialista por vocação, o proprietário da Rádio Esperança era um homem cujo faro para a comunicação sempre o colocava à frente do seu tempo. Em meados de 2009, o telefone do estúdio tocou. Do outro lado da linha, direto de São Paulo, a voz inconfundível do Dr. Jorge: — "Estou em uma loja de LPs e acabo de garimpar Dalva de Oliveira e Herivelton Martins. Você já ouviu falar deles? Prepare a produção para o meu programa, 'A Esperança Conversa com Você'. Vou contar essa história. Foi um furacão na época!" Dr. Jorge não buscava apenas discos; ele resgatava a memória afetiva do Brasil. Na semana seguinte, ele cruzou o estúdio com os vinis debaixo do braço. Combinamos a grava...

Estância intensifica obras estruturantes e autoriza implantação do Centro da Criança e do Adolescente

  Gestão municipal amplia investimentos em mobilidade, educação, esporte e saneamento, com foco na inclusão social Como parte do planejamento de novos investimentos, será assinada, nesta terça-feira (24), a ordem de serviço para a construção do Centro da Criança e do Adolescente, em Estância. A obra terá investimento de cerca de R$ 2 milhões, com recursos do Fundo da Criança e do Adolescente, e será instalada ao lado do ginásio da Escola Municipal João Nascimento Filho. O espaço, hoje ocioso, será requalificado para ações de proteção e desenvolvimento de crianças e adolescentes. O prefeito André Graça mantém um conjunto de obras voltadas à melhoria da infraestrutura e das condições de vida da população. As intervenções priorizam áreas com carência histórica de serviços públicos. Na mobilidade urbana, seguem os serviços de pavimentação da antiga Rua do Cigano e as obras de drenagem e pavimentação no Conjunto Santo Antônio. As ações buscam melhorar o tráfego e o acesso nessas...

Quando a sanfona silencia, a memória resiste: o forró pé de serra em Estância pede futuro

Em Estância, onde o São João se ergue como um dos mais emblemáticos do Brasil, o som da sanfona sempre foi mais que música: foi identidade em estado bruto. Durante muitas décadas de festejos ininterruptos, o fole ditou o ritmo da memória coletiva. Hoje, porém, o que se ouve, por entre bandeirolas e fogueiras, é uma auasência que inquieta. A partida de mestres como Zé Taquary, Badinho, Tota Machado, Zé Rodrigues, Raimundo de Jacó, Zedinato Cebinho e Patelô não representa apenas perdas individuais — é como se cada ausência arrancasse uma nota da partitura cultural da cidade. Restam poucos guardiões, como Neno, Zé Carlos e Gonçalo, sustentando, quase solitários, a respiração do forró tradicional. Há, nesse cenário, uma ironia silenciosa: celebra-se com grandiosidade o São João, enquanto se enfraquece, pouco a pouco, o alicerce que o sustenta. A festa permanece, mas sua essência corre o risco de se diluir. Nascido no Nordeste — entre Pernambuco, Paraíba e Ceará — o forró é fruto da mistura...

Prefeito André Graça anuncia nova fase para área do antigo Ceasa

  O prefeito André Graça anunciou que a Prefeitura de Estância dará início, no dia 3 de março, às 11h, a uma nova etapa de ocupação da área do antigo Ceasa. Na data, a gestão municipal assina a ordem de serviço para a construção de um Módulo Esportivo às margens da BR-101, em frente à Maratá. A medida marca a retomada definitiva de um espaço que permaneceu ocioso por cerca de 30 anos. O equipamento será implantado em uma área de 3.119,31 metros quadrados. O investimento soma R$ 1.039.790,66, com recursos oriundos da outorga de água e esgoto do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Estância. A execução caberá à empresa HFontes Engenharia e Construção. O prazo contratual é de dez meses, com entrega prevista para janeiro de 2027. O projeto resulta de parceria entre o Município de Estância e a Secretaria de Estado do Esporte e Lazer de Sergipe. O governo estadual fornecerá os módulos esportivos pré-fabricados. As estruturas incluem campo society, quadra poliesportiva, meia qu...

Os aguadeiros e as antigas fontes de Estância

Imagem do Google: ilustrativa   Durante minha infância e pré-adolescência, testemunhei a presença frequente dos vendedores de água, conhecidos como “aguadeiros”, que transportavam barris de água em burros e jumentos, oferecendo seus serviços de porta em porta e de bairro em bairro. Esses aguadeiros anunciavam: “Olhe a água, freguesa! Água boa, fresquinha, limpinha!”. As pessoas saíam de suas casas com suas vasilhas, eram abastecidas e pagavam pelo serviço. Os aguadeiros desempenharam um papel importante no fornecimento de água potável às famílias, especialmente porque a maioria não tinha água encanada em suas residências. O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) só foi criado em 28 de novembro de 1967, durante o primeiro mandato do prefeito Raymundo Silveira Souza (1967–1970). Esse marco representou o início de uma nova era na vida dos estancianos e gradualmente reduziu a presença dos vendedores ambulantes de água. Mesmo após a criação do SAAE, muitas famílias continuaram c...

Cuidado que o circo chegou e o palhaço está de olho

  O palhaço ladrão de mulher Lá pelos idos das décadas de 70 e 80, o Brasil vivia sob a sombra pesada da Ditadura Militar. Havia censura, medo, vigilância e um silêncio forçado que tentava enquadrar até o riso. No interior, porém, onde a repressão chegava mais como eco do que como sirene, o povo encontrava brechas. Pequenas, improvisadas, mas eficazes. E uma dessas brechas vinha sobre rodas, levantando poeira, boato e expectativa: o circo itinerante. Quando a lona começava a ser armada, a cidade mudava de humor. As rádios AM tocavam Waldik Soriano cantando que não era cachorro, Odair José mandava parar de tomar a pílula, e aquilo, por si só, já era quase um ato revolucionário. Enquanto a MPB “intelectualizada” discutia o país nos salões, o povo digeria o mundo no picadeiro, entre gargalhadas, suspiros e desejos mal disfarçados. Aqui em Estância, os circos chegaram como chegam as histórias que ninguém esquece. Circo Garcia, Circo de Tourada, Circo Vostak, Circo Fumachú. Cada...

Lobisomem que se atreva: no Alto do Cheiro, quem manda é Zé de Antero

O Alto do Cheiro não aparece em mapa grande. É desses lugares que só existem de verdade para quem chega devagar, sentindo a poeira subir mansa, misturada ao cheiro de terra quente e folha amassada. Foi num dezembro de 2008 que cheguei ali, levado pelo convite de Zé de Antero — homem conhecido mais pela boca do que pelos feitos, mas que, no sertão, isso já basta para virar lenda. Antes de subir a ladeira de barro rumo ao povoado, Riachão do Dantas me segurou pelos braços da memória. A igreja de Nossa Senhora do Amparo estava aberta, silenciosa, como se ainda guardasse ecos antigos. Ali, em 1966, um menino chamado Augusto Sérgio caiu da torre enquanto puxava o sino na hora mais solene da missa. O corpo foi levado às pressas para Lagarto; a notícia da morte voltou mais rápido. Desde então, o sino nunca tocou do mesmo jeito. Em cidade pequena, tragédia não passa — se acomoda. Riachão também é a terra do Bode Bito, criatura mais sociável que muito cristão. O bicho acompanhava missas, festas...