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João Barriga: o homem que “ressuscitou” no velório

João Esídio dos Santos, eternizado pelo apelido de João Barriga , foi um desses personagens que dão alma às cidades do interior. Homem simples e de mil ofícios, fez da Rua de São Cristóvão, no bairro Santa Cruz, em Estância, o seu porto seguro, onde fincou raízes e criou sua numerosa prole. Nos seus primeiros tempos, era figura cativa no cotidiano da cidade como aguadeiro, vendendo o precioso líquido transportado no lombo de burros. Com o suor do trabalho, conseguiu evoluir: adquiriu uma possante junta de bois e uma carroça, com a qual vencia as ladeiras transportando pedras e materiais de construção. Mais tarde, o destino o forçou a retroceder para um veículo menor, puxado por um só burro, até que as intempéries da vida o fizeram perder seus bens. João era casado com a senhora Sofia Ferreira dos Santos, com quem dividiu a jornada de criar nove filhos. Durante minha adolescência, conheci dois deles — Caquinho e Nenê —, que hoje, como o pai, já habitam a memória. Figura onipresente no b...

Barrismo: quando o pertencimento se transforma em consciência coletiva

  Há quem critique o barrismo como um simples apego exagerado à terra natal. Outros o enxergam como provincianismo, vaidade regional ou mera rivalidade entre cidades. Contudo, quando analisado sob a ótica moral, cultural e política, o barrismo pode representar algo muito mais profundo: identidade, pertencimento, valorização das raízes e compromisso com o desenvolvimento da própria comunidade. O barrismo saudável não nasce da arrogância. Ele brota da memória afetiva. É o orgulho do sotaque, da culinária, das tradições populares, das festas religiosas, das expressões culturais e da história construída por gerações. É o sentimento que leva alguém a defender sua cidade não por achar que ela é superior às demais, mas por entender que ela carrega suas origens, sua gente e sua trajetória de vida. No campo cultural, o barrismo possui papel fundamental. Povos que abandonam suas referências terminam absorvidos por modelos externos que pouco dialogam com sua realidade. Uma cidade que não ...

Deu Quiproquó no Forró de Chão Batido

  No ano da graça de 1976, no agreste profundo de um município que só aparece no mapa se a gente der zoom com fé, aconteceu uma das noites mais atrapalhadas já vistas num forrobodó regional. Tudo começou num baile animado por um trio de forró que era uma cópia sem vergonha, mas competente, d’Os 3 do Nordeste. O sanfoneiro era Ganso — um cabra magro feito vara de pescar, mas que tirava som da sanfona como se tivesse pacto com Santo Lua. Na zabumba, vinha Mangangão, gordo que só ele, que suava igual tampa de chaleira; e no triângulo, o invocado Saruê, que tocava com tanta empolgação que, vez em quando, perdia o compasso e seguia mesmo assim, com cara de quem estava certo. A festança se deu numa casa de chão batido, com candeeiro pendurado no meio do salão, balançando como se dançasse também. O dono da casa, Seu Minervino, passava hora em hora com balde d’água pra molhar o chão, senão o chap-chap do chinelo do povo fazia levantar poeira que até gritava por socorro. Nesse tipo ...

A experiência ignorada: por que a cadeira de presidente da Câmara de Estância foge dos veteranos

  Estância ocupa um papel releva nte no cenário político sergipano. Com forte arrecadação e influência regional, o município exige expertise na condução de seus espaços institucionais — especialmente no Poder Legislativo. A presidência da Câmara Municipal, mais do que uma função administrativa, representa a condução de uma estrutura que movimenta recursos expressivos. O duodécimo mensal é de R$ 1.133.005,35, o que projeta, ao longo de um biênio, um montante de R$ 27.192.108,40 sob gestão da Mesa Diretora. Trata-se, portanto, de uma função que exige preparo, planejamento e visão administrativa. A Câmara de Estância reúne vereadores com trajetórias distintas. Entre eles, nomes com longa experiência legislativa seguem como referências dentro da Casa. É o caso de Artur Oliveira, com seis mandatos; Sandro de Bibi e Zé da Paz, ambos com cinco mandatos. São parlamentares que acumulam décadas de vivência no Legislativo municipal, com conhecimento consolidado sobre o funcionamento ins...

O Circo, o Jogo e a Urna: Estância não pode ser figurante no espetáculo de 2026

  O ano de 2026 desenha-se como a “tempestade perfeita” para o entorpecimento da consciência política. Em um calendário em que a Copa do Mundo divide espaço com o brilho das fogueiras do São João, o eleitor corre o risco de ser reduzido a um mero espectador — e pior: o único a pagar o ingresso de um espetáculo no qual deveria ser o protagonista. Enquanto o Brasil vibra com o apito inicial em 11 de junho, nos bastidores, a engrenagem dos “mercadores de votos” já opera em rotação máxima, lubrificada por interesses que nada têm a ver com o bem comum. A patologia dos “candidatos copa do mundo” Eles surgem do nada, como se despertassem de uma hibernação estratégica que dura exatamente quatro anos. Não constroem, não participam, não pertencem — apenas aparecem. Cruzam Sergipe com o oportunismo de quem conhece os atalhos para o bolso e a esperança do povo, mas desconhece — ou despreza — a realidade das ruas de Estância. São os Candidatos Copa do Mundo: figuras que ignoram a cidade durante...

Estância intensifica obras estruturantes e autoriza implantação do Centro da Criança e do Adolescente

  Gestão municipal amplia investimentos em mobilidade, educação, esporte e saneamento, com foco na inclusão social Como parte do planejamento de novos investimentos, será assinada, nesta terça-feira (24), a ordem de serviço para a construção do Centro da Criança e do Adolescente, em Estância. A obra terá investimento de cerca de R$ 2 milhões, com recursos do Fundo da Criança e do Adolescente, e será instalada ao lado do ginásio da Escola Municipal João Nascimento Filho. O espaço, hoje ocioso, será requalificado para ações de proteção e desenvolvimento de crianças e adolescentes. O prefeito André Graça mantém um conjunto de obras voltadas à melhoria da infraestrutura e das condições de vida da população. As intervenções priorizam áreas com carência histórica de serviços públicos. Na mobilidade urbana, seguem os serviços de pavimentação da antiga Rua do Cigano e as obras de drenagem e pavimentação no Conjunto Santo Antônio. As ações buscam melhorar o tráfego e o acesso nessas...

Quando a sanfona silencia, a memória resiste: o forró pé de serra em Estância pede futuro

Em Estância, onde o São João se ergue como um dos mais emblemáticos do Brasil, o som da sanfona sempre foi mais que música: foi identidade em estado bruto. Durante muitas décadas de festejos ininterruptos, o fole ditou o ritmo da memória coletiva. Hoje, porém, o que se ouve, por entre bandeirolas e fogueiras, é uma auasência que inquieta. A partida de mestres como Zé Taquary, Badinho, Tota Machado, Zé Rodrigues, Raimundo de Jacó, Zedinato Cebinho e Patelô não representa apenas perdas individuais — é como se cada ausência arrancasse uma nota da partitura cultural da cidade. Restam poucos guardiões, como Neno, Zé Carlos e Gonçalo, sustentando, quase solitários, a respiração do forró tradicional. Há, nesse cenário, uma ironia silenciosa: celebra-se com grandiosidade o São João, enquanto se enfraquece, pouco a pouco, o alicerce que o sustenta. A festa permanece, mas sua essência corre o risco de se diluir. Nascido no Nordeste — entre Pernambuco, Paraíba e Ceará — o forró é fruto da mistura...